domingo, 18 de agosto de 2013

JONI MITCHELL (BLUE-1971)

"Blue foi um momento decisivo de muitas maneiras. No Blue, quase não há uma nota desonesta nos vocais. Naquela época da minha vida, não possuía defesas pessoais. Me sentia como papel celofane num maço de cigarros. Sentia como se não tivesse segredos do mundo, e não pudesse fingir que minha vida era forte. Mas a vantagem disso na música era de que não havia defesas ali também”.

(Joni Mitchell sobre o disco Blue)


Infelizmente, a densa obra da Canadense Roberta Joan Anderson "Joni Mitchell" não é muito comentada no Brasil, mas sua arte influenciou muitos artistas que são queridinhos do público Brasileiro. Alanis Morissete e Morissey são apenas dois dos vários fãs famosos de Joni, e que ajudaram a garantir o reconhecimento de sua obra por aqui. Renato Russo também contribuiu muito para a divulgação da obra de Mitchell em nosso país. A versão de Renato para The Last Time I Saw Richard, gravada no Acústico MTV Legião Urbana, aguçou a curiosidade de muitos legionários sobre Joni. Essa canção encerra o álbum que estamos destacando hoje. Blue, lançado em Junho de 1971 é considerado pelos fãs e crítica como o o melhor trabalho da Cantora, compositora, poetisa, instrumentista e pintora Joni Mitchell. 


Sempre presente nas listas dos melhores álbuns de importantes revistas de música, em 2006 foi listado pela revista americana Time como um dos 100 melhores álbuns de todos os tempos, foi eleito também o trigésimo melhor álbum na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone. Antes de Blue, Joni já tinha uma carreira de muito sucesso, três discos, um Grammy Awards na categoria Melhor Artista Folk e um convite para tocar no Festival de Woodstock. Infelizmente, Joni cancelou sua participação no Festival, pois seu empresário temia que ela perdesse uma participação no programa de TV The Dick Cavett Show.

Mesmo não participando do Festival, Mitchell tem uma canção que carrega o nome do mesmo, uma de suas favoritas, por sinal. Mas a agenda abarrotada, apresentações lotadas, obrigações com gravadora, empresário e etc. Tudo isso começou a pesar demais para uma jovem de 27 anos, que parecia cada vez mais desconfortável com tudo aquilo. Fora isso, Mitchell ainda tinha que lidar com o término de um relacionamento duradouro com o músico Graham Nash  do grupo Crosby, Stills, Nash e Young. Confusa e sufocada, Mitchell cancela boa parte de sua agenda, mudando-se para uma casinha nas montanhas, onde se isola do mundo.

O resultado dessas férias foram as canções de Blue, uma espécie de diário musical  onde Joni exorciza seus fantasmas. Blue é um disco tristíssimo, um registro honesto das dores e incertezas de Mitchell naquela época. Apesar da melancolia, a tristeza do disco não é pesada. A delicadeza dos arranjos, das letras e da bela voz de Joni tornam o disco poético e envolvente. Blue é de uma tristeza tão bonita, que quase não dói. O disco conta com a participação de outros músicos  fora Joni. "Stephen Stills (Baixo e Violão) James Taylor (Violão) Sneaky Pete Kleinow (Pedal Steel) e Russ Kunkel (Bateria)  Mas pode-se dizer que o piano, o viõlão e a voz de J.M guiam a sonoridade do disco. Blue é essencialmente um disco de Folk Rock, apesar de flertar discretamente com o Jazz, influência que Joni desenvolveria melhor posteriormente.

Na primeira faixa All I Want, Joni toca Dulcimer, instrumento medieval de percussão  que possui cordas. A batida da música é animadinha! A letra fala sobre as inquietações de Joni, sua sede de liberdade e busca de identidade. My Old Man é o primeiro momento piano e voz do disco. Outro grande momento piano e voz é a fortíssima faixa título Blue, onde Joni canta "Canções são como tatuagens."  O piano solitário de JM marca presença novamente na belíssima River, uma das minhas favoritas. Reflexão natalina, onde Joni canta novamente seu desconforto existencial, solidão e culpas.
 Little Green, composta em 1967  é a canção mais antiga do álbum, mas se encaixou perfeitamente ao tracklist deprê de Blue. A letra fala sobre a filha que Joni deu para adoção. A Case of you é mais um belo momento de ambiguidade poética do disco. Destaco aqui esses belos versos: “Sou uma pintora solitária. Eu vivo numa caixa de tintas, sendo assombrada pelo diabo.  E sendo atraída pelos que não têm medo.” 
O disco ainda conta com as ótimas California, This Flight Tonight, a animadinha "Carey" e a já citada "The Last Time I Saw Richard. Solidão, amores, desilusões, arrependimentos. Blue é um disco confessional e marcante, onde Joni fala de si, mas ao mesmo tempo fala de todos nós também. Um trabalho musical primoroso e sincero, onde a tristeza se destaca como uma ferramenta tão ou mais importante que a alegria na busca de identidade e amadurecimento.

Texto de
Thiago Cardoso Sepriano

FAIXAS

01- All I Want
02- My Old Man
03- Little Green
04- Carey
05- Blue
06- California
07- This Flight Tonight
08- River
09- A Case Of You
10- The Last Time I Saw Richard

OUÇA NA ÍNTEGRA






 

ERASMO CARLOS (CARLOS, ERASMO-1971)

“Considero o Carlos, Erasmo minha estréia na música adulta, depois do prazeroso Bbea-a-bá da Jovem Guarda. Vários rumos musicais, incontáveis tendências melódicas e novos amigos músicos seriam um processo natural para minha evolução. O repertório foi intuitivo e os sons foram surgindo, dependendo do clima que cada canção sugerisse. Esse disco consolidou minha maturidade e me projetou para um mundo real, onde o sonho acordado ainda existia.”

(Erasmo Carlos- Sobre o disco Carlos, Erasmo)


Com o término da Jovem Guarda  muitos artistas ficaram orfãos e inseguros, com exceção de Roberto Carlos, que após um breve namorico com a Soul Music, encontrou-se na vida como o maior ídolo da música popular romântica do Brasil. Enquanto isso, outros ídolos da época apostavam em novas possibilidades musicais, fazendo um caminho mais alternativo. Artistas como Wanderléa, Eduardo Araújo, Vanusa e Erasmo Carlos deixaram de lado o iê iê iê bonitinho e bem comportado para se aventurar em outras praias musicais. Roberto adotou um estilo sério e adulto para interpretar suas canções, caindo pra sempre nos braços da fama. Enquanto isso, o tremendão caía nos braços do sexo, das drogas e do rock and roll.

O ótimo Erasmo Carlos e os tremendões (1970) já dava sinais dessa nova fase de Erasmo, uma pequena mostra do que o Tremendão apresentaria em seu próximo trabalho. Carlos, Erasmo (1971) é o disco Contracultura, Bicho Grilo, Samba Soul. Tropicalista e o diabo a quatro do tremendão. Canções existencialistas e melancólicas convivem pacificamente com canções ensolaradas e ripongas. Carlos, Erasmo é um disco 100% Erasmo Carlos, com todas as suas inquietações e contradições. A vírgula servia para enfatizar quem era o Carlos em questão. A foto da capa traz um Erasmo largadão, com chapéu riponga e camiseta sem mangas.

Carlos, Erasmo decreta definitivamente o fim da inocência  da Jovem Guarda na vida de Erasmo, um grito de liberdade mesmo. O disco abre com una faixa no melhor estilo Simonal. De noite na Cama, de Caetano Veloso, a música tem um clima de reunião de boteco sexta á noite, com um coro contagiante, riff de guitarra swingado, cuíca e berimbau. A balada Masculino Feminino traz um dueto com a cantora Marisa Fossa, e na minha opinião é o momento menos empolgante do disco, mesmo assim é uma boa canção. É Preciso dar um jeito meu amigo é uma balada soul bem pedrada da dupla Roberto e Erasmo, a letra é bem deprê, mas tem um refrão forte e contestador: "É preciso dar um jeito meu amigo! Descansar não adianta, quando a gente se levanta, tanta coisa aconteceu".

Outro momento forte do disco é a faixa Dois Animais Na Selva Suja Da Rua, do talentosíssimo Taiguara. A introdução traz um piano meio Ray Charles meio João Donato, cheio de swing e latinidade. A letra tem uma poesia solta, colorida e bem riponga mesmo. Ainda na vibe hippie do disco destaco a balada soul Gente Aberta, de Roberto e Erasmo Carlos. Agora, ninguém chora mais, de Jorge Ben (Benjor) traz um ótimo riff de guitarra, sinos e um coro marcante, que canta frases diferentes da música simultaneamente, até o encontro de todas as vozes na frase "Chora Mais". Um efeito genial que abrilhanta ainda mais o disco. O álbum ainda conta com a ótima contribuição dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle na contagiante "26 anos de vida Normal" gravada também por Marcos Valle, uma das melhores letras do disco, na minha opinião.

O ótimo cardápio musical do disco segue com o Funkão poderoso 'Mundo Deserto" gravada também por Elis Regina, a bíblica "Sodoma e Gomorra" e a rumba viajandona "Maria Joana" que fala sobre isso mesmo que você está pensando, o tal cigarrinho de artista que o tremendão curtia muito naquela época. Carlos, Erasmo ainda conta com um timaço de compositores e músicos como  o maestro Chiquinho de Moraes, Sérgio Dias, Dinho Leme e Liminha (Mutantes), Lanny Gordin e o também maestro e tropicalista Rogério Duprat, que assina os arranjos de "Maria Joana" e "26 anos de Vida Normal". Arthur Verocai assina os arranjos de "Ciça Cecília" que foi tema da novela global a próxima atração. Carlos, Erasmo é  definitivamente um discaço da melhor fase do tremendão. Na minha opinião, o melhor disco dele. Se você ainda não conhece, procure e aprecie sem moderação essa obra prima.

Texto de
Thiago Cardoso Sepriano


FAIXAS

01- De Noite Na Cama
02- Masculino, Feminino
03- É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo
04- Dois Animais Na Selva Suja Da Rua
05- Gente Aberta
06- Agora Ninguém Chora Mais
07- Sodoma E Gomorra
08- Mundo Deserto
09- Não Te Quero Santa
10- Ciça Cecília
11- Em Busca Das Canções Perdidas Nº2 
12- 26 Anos De Vida Normal
13- Maria Joana

OUÇA NA ÍNTEGRA
http://www.radio.uol.com.br/#/album/erasmo-carlos/carlos-erasmo/29494


BAIXE O DISCO
http://www.4shared.com/get/5W12B1DE/E_C_-_Erasmo_Carlos_-_1971_-_C.html

domingo, 4 de agosto de 2013

ROBERTO CARLOS (O INIMITÁVEL-1968)

Escrever qualquer coisa sobre Roberto Carlos é arriscar levar pedrada dos inimigos de sua obra, que não são poucos. Para alguns jovens  RC é um tiozinho brega, que aparece sempre no final do ano, vestido de branco ou azul e cantando Emoções. Para alguns intelectuais da antiga  RC é uma marionete do sistema, que só servia para desviar a atenção do povo da situação política do país na época, cantando sobre brotos e carrões enquanto estudantes eram presos, torturados e mortos. Ainda haviam aqueles que julgavam RC como deturpador da Cultura Brasileira, por usar guitarra elétrica no país do Samba e da Bossa. Toda essa baboseira preconceituosa não é maior que seu carisma e talento incontestável de hitmaker, autor de clássicos que até os maiores inimigos de sua obra saem assobiando num momento de distração. Não adianta negar, Roberto é um dos maiores, senão o maior artista da música pop do Brasil. Como diria o próprio "Não adianta nem tentar me esquecer." O Inimitável (1968) é o primeiro álbum lançado pelo Rei após sua saída do Programa Jovem Guarda, que ficaria mais um tempo no ar sob o comando de seus amigos e parceiros na atração, Erasmo Carlos e Wanderléa. O título do disco é uma espécie de resposta aos imitadores de RC na época, o mais conhecido deles era o conterrâneo do rei, Paulo Sérgio.

O Inimitável é o álbum de transição de RC. O disco faz uma conexão entre o Roberto Iê iê iê que todos conheciam da Jovem Guarda com o ídolo pop romântico que conhecemos hoje, e entre esses dois um RC negão, cheio de balanço e pegada. É nesse disco que Roberto dá inicio a um marcante romance em sua carreira com a soul music americana. Após esse disco Roberto ficaria até 2000 sem dar títulos aos seus álbuns. Nesse trabalho RC demonstra em todas as faixas uma notável evolução como cantor, explorando melhor seus recursos vocais, encaixando sua voz nas melodias com perfeição, tornando cantor e canções uma coisa só. E não vou mais deixar você tão só de Antonio Marcos, primeira faixa do disco, demonstra bem isso. A voz do Rei casa redondinho com a melodia e os arranjos, e RC vai crescendo junto com a música de maneira espetacular.

Ninguém vai tirar você de mim tem uma pegada empolgante. Letra simples e de romantismo ingênuo que até lembra um pouco o Roberto da Jovem Guarda, mas com uma pegada mais nervosa. Se você pensa,  gravada por Gal Costa, Elis Regina, Wilson Simonal, Maysa e uma porrada de gente é um funkão infezado no melhor estilo James Brown, com metais envenenados e uma interpretação agressiva e vigorosa do rei.  É Meu, É Meu, É Meu, momento mais ingênuo do disco, tem uma gaitinha bem simpática e lembra bastante o Roberto dos brotos e carrões. As baladas Quase fui lhe procurar e O Tempo vai apagar, são uma pequena mostra do estilo pop latino romântico que Roberto desenvolveria melhor na década seguinte, e por onde pautaria sua carreira. Eu te amo, te amo, te amo tem pegada marcante e explosiva, contando com uma iterpretação visceral do rei e metais em brasa, bem diferente das versões mornas de Marisa Monte e do próprio Roberto em seu Acústico MTV. A faixa ainda conta com um efeito especial no refrão, onde a voz de Roberto soa distante e abafada, reproduzindo um diálogo ao telefone com sua amada. Creio que seja o maior hit do disco, e o refrão ajudou bastante, claro!

A bela e queixosa As Canções que você fez pra mim, sucesso na voz de Maria Bethânia, fala sobre Dedé, percursionista do Rei  que namorava a cantora Martinha. Dedé confidenciou ao Rei que após o término de seu namoro, chorava muito quando ouvia as canções que Martinha havia feito para o casal. Não deu outra, Roberto transformou a fossa do amigo em letra e melodia. Na empolgante Ciúme de Você de Luiz Ayrão, Robertão flerta novamente com o soul. Não há dinheiro que pague é mais um funkão dos bons, com metaleira incendiária e uma bela linha de baixo do grande PC Barros. A última faixa é Madrasta  de Renato Teixeira e Beto Ruschell, que foi interpretada pelo Rei no IV Festival de Música Popular Brasileira em 1968 (Única canção defendida em festivais pelo cantor a ser incluída em LP). A canção de certa forma melancólica, suave e de harmonia complexa, mostra novamente a indiscutível evolução de Roberto como cantor, pois é uma música muito difícil de interpretar.  O ótimo disco, que viria a seguir, reforça ainda mais esse namorico de Roberto com o Soul Norte Americano  em faixas como As Curvas da Estrada de Santos, Não vou ficar e etc... mas tudo isso começou aqui. O Inimitável apresenta um Roberto diferenciado, mais agressivo, maduro musicalmente e cantando muito! Se você não conhece ou tem preconceito em relação a obra de RC, ouça as doze faixas desse grande disco com muita atenção, e me responda depois se o cara é F... ou não é.

Texto de
Thiago Cardoso Sepriano

FAIXAS

01- E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só
02- Ninguém Vai Tirar Você De Mim
03- Se Você Pensa
04- É Meu, É Meu, É Meu
05- Quase Fui Lhe Procurar
06- Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo
07- As Canções Que Você Fez Pra Mim
08- Nem Mesmo Você
09- Ciúme De Você
10- Não Há Dinheiro Que Pague
11- O Tempo Vai Apagar
12- Madrasta


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